domingo, 20 de setembro de 2009

MORTE DE CLARICE LISPECTOR






Enquanto te enterravam no cemitério judeu
do Caju
(e o clarão de teu olhar soterrado
resistindo ainda)
o táxi corria comigo à borda da Lagoa
na direção de Botafogo
as pedras e as nuvens e as árvores
no vento
mostravam alegremente
que não dependem de nós

terça-feira, 28 de abril de 2009

Panorama


Entrevista que Clarice deu em 1977, ao jornalista Junio Lerner (então TV Cultura).

















terça-feira, 10 de março de 2009

São Paulo, 11/12/2007 10h51

Clarice Lispector: "Escrevo para me manter viva"

Relançamento de livros e eventos lembram os 30 anos da morte da jornalista e escritora

Portal Imprensa

No dia 9 de dezembro de 1977 morreu Clarice Lispector. A data, que vem sendo lembrada desde o início do ano - com exposição no Museu da Língua Portuguesa e relançamento de livros da autora, por exemplo - é também tema de vários eventos pelo país, que buscam homenagear vida e obra desta escritora e jornalista. Nascida em 1925, na Ucrânia, ainda pequena mudou-se com a família para o Brasil. Morou em Alagoas e Pernambuco, onde viveu grande parte de sua infância. Desde muito cedo mostrou vocação literária e apresso pela escrita e literatura. Órfã de mãe aos nove anos, Clarice muda-se para o Rio de Janeiro em meados da década de 1930. Lá, inicia seus estudos na Faculdade Nacional de Direito, mas, logo no início da vida acadêmica, ruma para o jornalismo. Seu primeiro emprego na nova carreira é como redatora e repórter da Agência Nacional. Em 19 de janeiro de 1941, publica a reportagem "Onde se ensinará a ser feliz", no jornal Diário do Povo, de Campinas (SP), sobre a inauguração de um lar para meninas carentes. Além de textos jornalísticos, continua a publicar textos literários. Em 1942, então com 22 anos, assume a função de redatora do jornal A Noite. Neste mesmo ano, escreve seu primeiro romance, "Perto do coração selvagem". Em 1943 casa-se com o colega de faculdade Maury Gurgel Valente e termina o curso de Direito. Um ano depois, muda-se para Belém do Pará (PA), acompanhado seu marido, que seguiu carreira diplomática. A partir de então, inicia um período de constantes mudanças de cidade e país. Em 1944, em plena Segunda Guerra Mundial, muda-se para Nápoles, na Itália. Lá, termina seu segundo romance, "O Lustre". Recebe o prêmio Graça Aranha com "Perto do coração selvagem", considerado o melhor romance de 1943. Clarice fica grávida de seu primeiro filho em 1948. Para ela, a vida em Berna, onde então morava, é de miséria existencial. A "Cidade Sitiada", após três anos de trabalho, fica pronto. Terminado o último capítulo, dá à luz. Em 1952, então no Rio de Janeiro, volta a trabalhar em jornais, no período de maio a outubro, assinando a página "Entre Mulheres", no jornal Comício, sob o pseudônimo de "Tereza Quadros". Em 10 de fevereiro de 1953 nasce Paulo, seu segundo filho. Termina de escrever "A maça no Escuro" em 1956. Um ano depois, publica 15 contos no "Suplemento Cultural", do jornal O Estado de S.Paulo. Em 1958 é convidada a colaborar com a revista Senhor, prevista para ser lançada no ano seguinte. Em 1959 separa-se do marido e decide comprar o apartamento onde reside, no bairro do Leme. Inicia, em agosto, uma coluna no jornal Correio da Manhã, intitulada "Correio Feminino - Feira de Utilidades". No início da década de 1960 publica "Laços de Família", seu primeiro livro de contos. Começa a assinar a coluna "Só para Mulheres", como ghost-writer da atriz Ilka Soares, no Diário da Noite. Em 1961 recebe o Prêmio Jabuti, da Câmara Brasileira do Livro, por "Laços de família". Em 1964, publica o livro de contos "A legião estrangeira" e o romance "A paixão segundo G.H. Na madrugada de 14 de setembro de 1966 a escritora dorme com um cigarro aceso, provocando um incêndio. Seu quarto ficou totalmente destruído. Com inúmeras queimaduras pelo corpo, passou três dias sob o risco de morte - e dois meses hospitalizada. Quase tem sua mão direita - a mais afetada - amputada pelos médicos. O acidente mudaria em definitivo a vida de Clarice. Começa a publicar em agosto de 1967 crônicas no Jornal do Brasil, trabalho que mantém por seis anos. Em 1968 entrevista personalidades para a revista Manchete na seção "Diálogos possíveis com Clarice Lispector". Em 1969 publica "Uma aprendizagem ou O livro dos prazeres". No ano seguinte começa a escrever "Água Viva". Em 1971 publica a coletânea de contos "Felicidade Clandestina". Em 1974 intensifica seu trabalho como tradutora. Publica mais dois livros de contos: "A via crucis do corpo" e "Onde estivestes de noite" Em maio de 1976, corre o boato que a escritora não mais receberia jornalistas. José Castello, biógrafo e escritor, nessa época trabalhando no jornal O Globo, mesmo assim telefona e consegue marcar um encontro. Após muitas idas e vindas é recebido. Trava então o seguinte diálogo com Clarice: J.C. "- Por que você escreve? C.L. "- Vou lhe responder com outra pergunta: - Por que você bebe água?" J.C. "- Por que bebo água? Porque tenho sede." C.L. "- Quer dizer que você bebe água para não morrer. Pois eu também: escrevo para me manter viva." Enquanto escreve A "hora da estrela", toma notas para o novo romance, "Um sopro de vida". Publica outras coletâneas e participa de entrevistas. No dia 9 de dezembro de 1977, um dia antes de seu 57º aniversário, Clarice Lispector morreu, vítima de câncer no ovário. Alguns livros e coletâneas são lançados postumamente.

LIVRO DOS INTERIORES


Na semana que completa 30 anos de sua morte (9/12/1977), O Grito! relembra a jornalista inusitada que foi Clarice no livro de entrevistas De Corpo Inteiro
Por Paulo Floro

Duas coisas a considerar da Clarice jornalista: seu ímpeto em desdobrar o indivíduo para buscar algo que aplaque (mesmo que por um momento) sua inquietação de existir continua em suas entrevistas. A diferença é que ela troca seus personagens por pessoas reais. Outro ponto, talvez o mais interessante na obra da autora, é que ao tentar desvendar questões de seus convidados e entrevistados, ela própria se revele.

É pergunta recorrente na série de entrevistas que compõem De Corpo Inteiro, último dos livros, da obra completa de Clarice Lispector, reeditados pela Rocco: “O que é o amor?”. De Tom Jobim, escutou: “amar é se dar, se dar, se dar”. Chico Buarque disse “não sei definir” e voltou à pergunta a Clarice, que emendou: “nem eu”. Essa subjetividade é incomum no Jornalismo e não teve outra experiência feliz depois de Clarice. A série de entrevistas com personalidades da cultura e política dos anos 1960 e 1970 foi publicada pela finada revista Manchete. Já uma escritora reconhecida – lançara entre outros “Uma Maça no Escuro” – a autora construía um bate-papo franco com o personagem, não raro também sendo entrevistada. Em alguns casos, discutia até mesmo seu modo de criar, seu processo de feitura dos livros e suas experiências no exterior ao lado do marido embaixador, que lhe serviu de inspiração para alguns de seus livros.

Como escritora, Clarice não era menos repórter. Pelo contrário, era exímia. Seu processo de pesquisa era cuidadoso e sua apuração tão delicada e minuciosa que transmite uma intimidade com o entrevistado, que muitas vezes não existia. Era preocupada em ser distante quando falava com amigos, o que podemos chamar de ética pessoal sua, mas se tratava de uma preocupação com a clareza das informações. Tímida, mas corajosa, como gostava de ressaltar, não tinha receio de se expor ao ser pega nas mesmas perguntas que fazia: “você tem medo?”, “por que escreve?”. Em seu diálogo com o leitor, admitia até mesmo suas mudanças pessoais. Interessante a entrevista com Teresa Souza Campos, uma “figurino”, como chamava à época, tida como fútil por Clarice, mas que se revelou um ser humanos impressionante no final da entrevista. Clarice a descobriu.

Surpreendente, De Corpo Inteiro é um retrato de um jornalismo pouco conhecido, escrito com graça, delicadeza e sentimento. Sem se afastar de seu estilo próprio, o livro é uma obra legítima de Clarice Lispector, com toda sua preocupação com o indivíduo e questões universais. Ótima oportunidade para entrar na alma de nomes como Jorge Amado, Bibi Ferreira, Tarcísio Meira, Ivo Pitanguy e Fernando Sabino, entre outros.

Fonte: http://www.revistaogrito.com/page/04/12/2007/clarice-lispector-jornalista/

quinta-feira, 15 de janeiro de 2009